Base para todas as formas de vida do planeta, solos saudáveis são cruciais para a manutenção dos ecossistemas, regulação climática e produção de alimentos
Falamos incansavelmente sobre o quão florestas e plantações são vitais para a humanidade e o meio ambiente. Afinal, incontáveis são os benefícios ofertados por ecossistemas naturais e por agroecossistemas.
Contudo, não podemos ignorar um recurso da natureza igualmente inestimável que, por resolução da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), é globalmente celebrado no dia 05 de dezembro: o solo. Ou, melhor dizendo, os solos, já que há uma diversidade de tipos de solos existentes pelo mundo.
Uma iniciativa global extremamente necessária, oportuno ressaltar, que visa anualmente reforçar a importância de ações de conservação e gerenciamento adequado dos solos. Pois, apesar de fundamentais à vida na Terra, esses substratos nem sempre são manejados da maneira mais apropriada e enfrentam ameaças constantes.
O solo na natureza
Segundo fundamentos do ramo da ciência que estuda os solos no seu ambiente natural, a Pedologia, o solo é definido como sendo o material disposto em camadas que recobre a superfície terrestre, e que é formado pela desagregação das rochas.
Apesar de muitas pessoas o verem como algo inanimado e sem relevância, que serve apenas de suporte físico para plantas, o solo é um organismo vivo complexo, composto por matérias minerais e orgânicas, água e ar.
Sistema totalmente dinâmico que sustenta todos os ecossistemas e a humanidade, é habitat para uma vasta e interligada comunidade de microrganismos (fungos, bactérias) e macroorganismos (minhocas, insetos, aracnídeos, raízes de plantas) que, juntos, trabalham na fertilidade do solo.
Pode até não parecer, mas um quarto da biodiversidade total do planeta está presente no solo. Em apenas 10 gramas desse substrato natural, podem haver até 360 mil espécies de seres vivos. Ou seja, um punhado de solo contém mais vida do que pessoas no planeta!
Um recurso natural abundante, porém vulnerável e não renovável
Assim como o corpo humano, o solo possui funções físicas, químicas e biológicas próprias e, como tal, depende do convívio em equilíbrio de seus habitantes para se manter saudável e produtivo. Caso contrário, a camada superficial que reveste a litosfera seria uma mistura estéril de minerais intemperizados.
Mas, para que essa interação positiva aconteça e esse bem tão valioso que cobre grande parte da superfície terrestre seja preservado para as presentes e futuras gerações, alguns cuidados são elementares. Até mesmo porque estamos diante de um recurso natural finito e não renovável, que não é capaz de ser prontamente substituído em uma velocidade condizente com o ritmo que é consumido.
Isso porque um solo, para se formar, necessita de uma junção de inúmeros fatores como disponibilidade de material de origem (rocha matriz ou rocha mãe), condições hídricas, clima, relevo, atividade biológica (organismos vivos) e… tempo cronológico.
Em outras palavras, resulta de um paciente, lento e minucioso trabalho da natureza – processo chamado de intemperismo –, cujo desenvolvimento pode demorar milhões de anos para ser concluído.
E por que proteger os solos é tão importante?
Falamos há pouco que o solo é responsável por sustentar os ecossistemas terrestres e a humanidade. Mas, qual é o real significado por trás dessa afirmação?
A resposta é bastante simples: o solo desempenha papel primordial na manutenção dos ambientes naturais e agrícolas e no desenvolvimento de praticamente todas as atividades humanas, já que exerce muitas funções e benefícios:
- Habitat e biodiversidade: faz parte de todos os habitats terrestres, abriga uma ampla biodiversidade de organismos vivos e representa a base para a sobrevivência das pessoas, animais e vegetais;
- Sustentabilidade ambiental: auxilia efusivamente na proteção de outros recursos da natureza e na redução de riscos ambientais, contribuindo na prevenção de desastres;
- Segurança alimentar: é um substrato crucial para o plantio e nutrição dos cultivos agrícolas, isto é, para a produção e disponibilidade global de alimentos, já que 95% dos alimentos são, direta ou indiretamente, produzidos a partir da terra;
- Gestão da água: por meio dele ocorrem os processos de infiltração e filtragem (purificação) da água da chuva, que é liberada gradualmente para abastecer córregos, rios, lençóis freáticos e aquíferos;
- Resiliência climática: por absorver CO2 da atmosfera através das plantas e armazená-lo como matéria orgânica, atua como um grande reservatório de carbono e contribui na regulação do clima, ajudando a mitigar o aquecimento global;
- Extração de minerais: dele retiramos várias matérias-primas que são usadas na construção civil e na produção de objetos do nosso uso diário, a exemplo dos minerais, minérios, rochas, argila, areia e sal;
- Recursos energéticos: é aproveitado para diversas atividades econômicas, como a exploração de recursos energéticos,pois é dele que são extraídos combustíveis fósseis como o petróleo, o gás natural e a energia geotérmica;
- Suporte à infraestrutura: sobre ele são construídas as edificações e demais infraestruturas como casas, indústrias, rodovias, ferrovias, viadutos, postes elétricos etc.;
- Qualidade de vida: nele realizamos práticas culturais, de lazer, educacionais, espirituais e científicas, apoiando de forma direta nossa saúde e bem-estar.
Uso racional e manejo sustentável do solo
Está bastante claro que o solo desempenha serviços ecossistêmicos fundamentais em diversas esferas e setores, que vão muito além de viabilizar florestas e lavouras e de fomentar outras tantas cadeias produtivas.
Contudo, à medida que todas as contribuições só são passíveis de serem executadas por solos saudáveis, fica aqui um grande alerta: o uso responsável e o manejo correto desse precioso recurso tornaram-se questões urgentes, tanto para sua preservação quanto perenidade.
Evitar seu esgotamento por meio de práticas de manejo sustentáveis – pois, lembremos, estamos diante de um recurso natural não renovável – é ação primordial para assegurar não só a subsistência das plantas, animais e demais formas de vida que povoam o solo. Mas, por extensão, o futuro da raça humana.
Produtividade x sensibilização ambiental
Se antes produzir e preservar eram ações consideradas impossíveis de acontecer ao mesmo tempo, com o avanço da ciência e o aumento da consciência ecológica essa ambiguidade já não é mais o padrão. Hoje é plenamente possível conciliar eficiência com sustentabilidade ambiental, social e econômica.
Felizmente, é crescente o número de agricultores e técnicos de campo que buscam estratégias voltadas a reduzir os impactos negativos do ciclo produtivo, visando manter a qualidade das terras e certificar sua sustentação a longo prazo.
Essas práticas vão desde a adoção de técnicas conservacionistas de manejo do solo – como rotação de culturas, plantio direto, adubação verde e conservação da vegetação nativa – à utilização de sistemas integrados como o ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta). E, principalmente, ao uso de inteligência tecnológica.
Tecnologia como grande aliada de solos saudáveis
Impulsionados pela transformação digital e pela necessidade de modernização, os setores rural e florestal vêm cada dia mais investindo em inovação. O foco é conquistar mais autonomia, agilidade, controle, conectividade e integração nas operações, em diferentes estágios. Entre eles, fazer da etapa de manejo do solo um processo muito mais tático e preciso.
Intitulado Agricultura 4.0, esse modelo produtivo baseado na adoção conjunta de recursos de automação, imagens de satélite, Big Data, inteligência artificial, plataformas digitais e outras tecnologias possibilita inúmeros ganhos e vantagens, como:
- Aperfeiçoamento dos processos de gestão;
- Mapeamento digital e detalhado de áreas;
- Monitoramento em larga escala e de forma contínua;
- Obtenção de diagnósticos acurados;
- Supervisão de resultados praticamente em tempo real;
- Tomadas de decisões pautadas em evidências, e não apenas em percepções.


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